United for global mental health & Vertentes
Incêndios, Enchentes e Mêdo: O Impacto Humano das Mudanças Climáticas no Brasil
De Norte a Sul, as mudanças climáticas estão impactando a saúde mental no Brasil. É assim que se passa.
Brasil na vanguarda das mudanças climáticas
Desde as secas e incêndios florestais da Amazônia até as inundações incessantes do Rio Grande do Sul, comunidades em todo o Brasil estão suportando o peso dos impactos das mudanças climáticas na saúde mental. 
Isso deve fazer parte da conversa na COP30.

Segundo dados do WWF: "o aquecimento em várias regiões do Brasil já é maior que a média global: em algumas partes do país, as temperaturas máximas médias aumentaram até 3°C nos últimos 60 anos – um aquecimento maior que a média global".

As mudanças climáticas afetam a saúde mental de múltiplas maneiras sobrepostas. Eventos climáticos extremos mais frequentes e intensos – enchentes, secas, incêndios florestais – aumentam o risco de depressão e transtorno de estresse pós-traumático. Eles também desestabilizam os determinantes sociais da saúde mental ao destruir casas, perturbar meios de subsistência e aprofundar a pobreza. Comunidades cuja identidade e meios de subsistência estão ligados à terra – incluindo muitos povos indígenas – enfrentam danos desproporcionais.

Este ano, a COP30 está sendo sediada pelo Brasil na Amazônia,
na cidade de Belém, de 10 a 21 de novembro.

A seguir, mostramos como as mudanças climáticas estão afetando o bem-estar psicológico em todo o Brasil: desde comunidades indígenas do Tapajós, que enfrentam estações mais quentes e secas e incêndios florestais, até as comunidades impactadas pelas enchentes do Rio Grande do Sul.

"Não é só o planeta que está doente. São os corpos, as memórias e os sonhos dos povos indígenas. Essas histórias são um chamado à ação: não podemos nos adaptar às mudanças climáticas sem proteger a mente, o espírito e a memória daqueles que vivem mais próximos da terra. Que isso seja ouvido na COP30 e além."
Luana Kumaruara
Antropóloga, Universidade Federal do Oeste do Pará
Histórias do Norte
Para os Kumaruara
O Baixo Tapajós está entre as regiões mais ricas em socio biodiversidade da Amazônia brasileira. Com El Niño, a área enfrentou secas severas – mais recentemente em 2022–2023 e 2024 – e, nesses anos, sofreu incêndios florestais extensos.

Esses eventos trouxeram fome e doença, afetando bem-viver (um conceito holístico de bem-estar) e a saúde mental dos povos indígenas.

Para os Kumaruara – guardiões do conhecimento florestal e ancestral cuja saúde mental está na linha de frente das mudanças climáticas – a mudança climática não é apenas aumento das temperaturas ou recuo das águas. São as mães que não conseguem mais alimentar as crianças com alimentos cultivados na floresta, e os jovens forçados a deixar as casas ancestrais.

À medida que as secas pioram e a fumaça dos incêndios florestais se intensifica, também aumenta o peso emocional carregado por essas comunidades: ansiedade, luto, desorientação espiritual e trauma são tão reais quanto qualquer dano físico – mas permanecem amplamente invisíveis nas políticas climáticas.
Arlete Kumaruara, 60, Cacica da Comunidade Muruary
Arlete descreve como secas recorrentes prejudicaram a capacidade da comunidade de se sustentar, forçando famílias a migrar devido à falta de água e subsistência viável.

O plantio de culturas como mandioca e mandioca, a pesca e a caça tornaram-se inviáveis no território.

(Crédito video: Marcinha Kamaruara)
"Como outras famílias, não tínhamos água, e não poderíamos sobreviver aqui. Mas é mais do que isso – tudo afeta o bem-estar psicológico das pessoas, especialmente mulheres, crianças... E isso é realmente prejudicial agora, com essa mudança climática, que nos afeta cada vez mais, é prejudicial."
Arlete Kumaruara
Cacica Comunidade Muruary 
Arlete lamenta a perda da abundância e explica como a migração para a cidade perturba tradições, dieta e modo de vida. Ela descreve impactos incluindo doenças e fraqueza física ligadas à falta de alimentos nutritivos e tradicionais, à perda de lugares sagrados e ao sofrimento dos "encantados" (seres espirituais), ao aumento do estresse e dos conflitos, e ao aumento do uso de substâncias entre os jovens – problemas que antes eram incomuns.
(Video credit: Douglas Munduruku, Thaygon Arapiun)
Wamerson Kumaruara
Wamerson, uma criança da vila Muruary, pinta um quadro angustiante da seca.

Ele relembra as dificuldades de se locomover, a falta de comida e até mesmo testemunhar pescadores ilegais despejando peixes podres para os moradores comerem.

Após incêndios florestais, ele percebeu o ar ficando mais quente e poluído pelos incêndios, fazendo muitos, especialmente crianças, adoecerem com problemas respiratórios.

(Crédito video : Marcinha Kamaruara)
"A estação das enchentes é a melhor época, e a seca é ruim. Quando a seca chega, é um período horrível — peixes mortos, pouca água para os animais beberem... Fico triste ao ver animais mortos e pessoas tendo que deixar suas vilas."
Wamerson Kumaruara
Pajé Naldinho
O Pajé Naldinho Kumaruara liderança espiritual do território Kamaruara.

Naldinho narra a luta constante para defender o território, que se agrava com as mudanças climáticas, gera estresse, raiva, medo, angústia e aflição, impactando negativamente a saúde mental. A tensão afeta a convivência diária e as relações familiares.

Reflete que embora a luta traga maturidade e conhecimento (lado positivo), o custo emocional é alto, levando muitos a buscar refúgio no álcool industrial, o que é uma "ilusão" e uma "falsa segurança" que enfraquece o movimento e aumenta a violência.

(Crédito Foto: Marcinha Kamaruara)

"Os mais idosos, aqueles que tem problemas de pulmão, aqueles que tem problemas de anemia, todos esses vão sofrer muito mais..."
Pajé Naldinho Kumaruara, 31
Histórias do Sul
Photo: A child in Rio Grande do Sul looks over the flood damage.
As enchentes do Rio Grande do Sul
As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul ao longo de um período de nove meses – primeiro em setembro de 2023 e depois, com maior intensidade em maio de 2024 – marcaram a sequência mais longa de desastres registrada na história brasileira. Milhares ficaram sem teto, mais de 2 milhões de pessoas foram afetadas e 169 pessoas morreram.

Porto Alegre


As histórias abaixo – de Elizete, Viviane e Vavà – foram registradas em Vila Dique, um bairro ao norte de Porto Alegre. As intensas chuvas de maio de 2024 trouxeram visibilidade à área – e revelaram vulnerabilidades crônicas. 
Um morador disse: "Não foi a enchente que causou a tragédia. A enchente foi a gota d'água em uma tragédia que vivenciamos diariamente."

As enchentes devastaram casas e memórias. E depois disso, a comunidade recebeu pouco apoio consistente; A única solução proposta tem sido a realocação, um processo percebido como desorganizado e um risco para os laços comunitários.

A maioria dos moradores de Vila Dique trabalha com reciclagem. A comunidade há muito enfrenta conflitos territoriais e vive à margem da atenção pública.
Elizete, colecionadora de materiais recicláveis, Vila Dique

As enchentes obrigaram Elizete a se mudar para um abrigo.

Ela descreveu medo de sair de casa com filhos, pânico por perder contato com o marido e um novo medo a cada chuva forte.

Ela sentia que o governo culpava a comunidade em vez de ajudar.

(Foto: Elizete em seu galpão de reciclagem. Crédito: Greice Tonietto.)

Viviane, colecionadora de materiais recicláveis, Vila Dique

Viviane recebeu ajuda federal em caso de desastre e reconstruiu sua casa em terreno mais elevado com a renda do marido.

Ainda assim, ela se pergunta: "Quanto tempo vamos ficar aqui?"

Mesmo com uma casa nova, muitos vivem em uma "situação temporária permanente", esperando por reassentamento e vivendo ansiedade constante.

(Foto: Viviane e seu papagaio, Maloqueira, em frente ao galpão de reciclagem deles. Crédito: Greice Tonietto.)

O Vale de Taquari


As histórias abaixo de Maninho e Waleska foram registradas em locais próximos a Colinas, Roca Sales, Muçum – cidades no Vale de Taquari.

Em 2025, um ano após as enchentes e com a aproximação da COP30, o Vale de Taquari ainda mostra devastação total: destroços de casas, estradas remodeladas pelo rio e fundações vazias. O rio criou um novo caminho; a força da água varreu tudo.
Maninho, pescador, Colinas, Vale de Taquari

Maninho, de uma família de pescadores, diz que nem mesmo navegadores habilidosos conseguiriam prever um rio 20 metros acima do seu nível normal.

Resgatar pessoas de barco durante as enchentes foi mortal: as águas estavam agitadas e cheias de destroços. No entanto, não agir não era uma opção.

Sua relação íntima com o rio e sua sabedoria como pescador foram fundamentais em resgates e operações de salvamento, mas a satisfação de poder ajudar não impediu a experiência traumática de testemunhar muitas mortes e tristezas, mudando para sempre a forma como ele se relaciona com o rio, que antes era um companheiro, mas agora também fonte de perigo e angústia.

Foto:Maninho no topo do morro na cidade de Colinas. O rio Taquari pode ser visto ao fundo. Crédito: Greice Tonietto.

Waleska, profissional de saúde mental, Roca Sales, Taquari Valley

Waleska foi voluntária durante as enchentes, oferecendo grupos de apoio e atendimento individual.

Houve solidariedade emocional no começo, mas ela sentiu que não podia demonstrar fraqueza:

"Numa quarta-feira, bem cedo, eu já estava exausta. Então, enquanto dirigia pela rua, olhei ao redor e vi tudo aquilo ali... Então comecei a chorar. Meu marido, que também trabalha na área da saúde, me viu assim e disse: 'Você não pode chorar, porque se você chorar... Como as pessoas vão lidar? Você tem que aguentar isso'."

Waleska lamenta a falha em estabelecer redes permanentes de saúde mental além da resposta imediata a desastres:

 "Pouco a pouco, as redes começaram a se desfazer."

COP30
Uma oportunidade para a saúde mental
Apesar dos profundos impactos que as mudanças climáticas estão causando na saúde mental no Brasil, estamos defendendo que a COP30 represente uma oportunidade global fundamental para proteger a saúde mental dos impactos das mudanças climáticas.

Você pode ler mais sobre o que defendemos na COP30 acessando ao site da United for Global Mental Health - (texto em inglês).
This photoessay was developed by Alessandro Massazza and Dave Gill (United for Global Mental Health), with members of the COP30 Short-Term Action Group hosted by the Global Mental Health Action Network: Juliana Fleury (Vertentes_Mental Health Ecosystem), Tatiana Souza de Camargo (Federal University of Rio Grande do Sul), and Izabela Jatene (Federal University of Pará), and local supporters Luana Kumaruara (Federal University of West of Pará - Campus Santarem), Marilisa Bialvo Hoffmann and Eduardo Trusz de Mattos (Federal University of Rio Grande do Sul), the team from IFMSA Brazil, Tiana Brum de Jesus (social worker, Grupo Hospitalar Conceição), and Juliana Napp (social worker, Casa Violeta Coordinator).
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